terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mendigo gordo


Se me recordo bem ou mal, era o segundo dia deste ano. Sábado. Noite, voltando para casa, absolutamente perdido em pensamentos esparsos que teimavam em se embaralhar à medida que meus olhos ardiam de sono, de ressaca, de todas as coisas juntas em mais um dia extremamente boçal. O ônibus, este estava repleto de pessoas como eu, algumas entediadas, outras soporíferas, mas todas um pouco amarelas e sem muita vontade de demonstrar alguma reação espontânea. Tudo bem, eu esperava chegar em casa e fazer um pouco de nada, admitindo em uma homilia interna que isto era normal e passageiro, e que mal algum havia nisso.
Em meio a este caminho, ansioso para ver a Marginal Pinheiros e a beleza da Lua refletindo em sua água podre (e de fato há certa beleza nesta imagem, oras), anunciando que já não faltava tanto, deparei-me com uma cena. Como aquelas velhas máquinas fotográficas, as primeiras, que disparavam a luz no seu recipiente escuro, para apenas momentos depois recriarem um resquício de memória, não houve uma percepção objetiva do fato.
Mas o fato é que, deitado de bruços sobre uma pequena rampa de acesso concretada, entrada de uma loja de brinquedos, estava um homem obeso. Gordo. Um mendigo gordo. A princípio, sua obesidade exibida em sua pele morena e descamisada, totalmente à vontade na noite sem nuvens, parcialmente recoberta por uma colcha de algodão cru e ensebada, me causou certa comoção: como mais uma mentira, eu devo admitir de fato que me deu foi vontade de rir mesmo. Sua cabeleira era bem sarará, o que tornava a figura mais cômica do que o que eu deveria me permitir crer, e possivelmente trata-se de uma pessoa a seu modo irreverente.
Entretanto, não é este o ponto. O que me deixou perplexo era o grosso livro de capa dura em suas mãos, e que o distinto cavalheiro lia tranquilamente, balançando o seu gordo e sujo pezinho direito no ar. Confesso que senti constrangimento em olhar para ele numa janela indiscreta, espiando sua privacidade, seu momento de leitura e descontração. Instantes depois, a cena ficou para trás; o ônibus seguiu em frente no seu doce e tradicional solavanco ritmado. Foi uma instantânea, e como o flash que bate em seu olho e deixa o branco em volta do seu campo de visão, a graça foi se desfazendo. Cômico, cômico, cômico... Não mais cômico.
Porra nenhuma. Tudo bem, não sejamos piegas: é sempre reconfortante pensar “antes ele do que eu”. Nem estou aqui recriando este fato para discursar em prol de alguma coisa. Mas perdi a graça. Eu não sei, me veio um desgosto, uma vontade de anular a imagem, criar um castelinho mais engraçado, mas não deu. Enfim, obviamente eu me esqueci disso quando girei a chave da porta de meu quarto, mas não consegui pensar nada como “que bonito, o cara é um fudido, mas tem cultura”. Não mesmo. Entreguei-me a qualquer esvaziamento de crânio e depois dormi, mas não, não mesmo.